Ursula Tautz Ursula Tautz

Instagram

Atopos – a utopia _ textos

Estranhamento

Isabel Portella

“Porque, se fores embora,
não vais encontrar outra cidade para viver.
Mesmo se encontrares, a tua cidade vai atrás de ti.”

Milton Hatoum
em “Órfãos do Eldorado”

Ursula Tautz apresenta fotografias e uma videoinstalação. Pesquisando as relações que envolvem o habitar, o pertencer, a artista utiliza a (re) significação do espaço para o desenvolvimento de suas questões: a inquietação, um certo mal-estar permanente, condição pós-moderna de ser estrangeiro na própria terra. A série de fotografias foi desenvolvida na cidade de Ołdrzychowice Kłodzkie, Polônia, antiga Ullersdorf an der Biele, local de origem de sua família. São 5 fotografias manipuladas digitalmente, impressas em papel fotográfico sobre PS, além de uma projeção em looping na parede. Nestas apreensões, em posição fetal e de vermelho, a artista atua como personagem para se fundir à paisagem e à arquitetura. Após o registro, Ursula sobrepõe duas ou mais fotos, criando um duplo dela mesma, procurando outros significados para o espaço fotografado.

Ursula Tautz faz uma viagem de buscas. Intrigada com a trajetória familiar, vai ao encontro do passado que não conheceu, mas que está sempre presente, povoando de lembranças e memórias o seu cotidiano. Refazer o caminho percorrido por seus parentes é um impulso vital, necessário e urgente. Mais do que tudo a artista procura a sua história, seus locais de pertencimento, suas raízes. É importante que nada fique esquecido. Nem a guerra, nem a fome, nem a casa da Polônia e seus arredores. Refazer ciclos ajuda a aplacar angustias e sentimentos de falta, mas nunca o estranhamento do não pertencimento!

A proposta da artista é bastante reveladora de suas inquietações. Em solo polonês, terra natal de seus ancestrais, Ursula busca renascer, encontrar seu lugar. Assume uma posição fetal e se deixa fotografar sobre a terra, sobre a vegetação que cresce independente, sem cuidados. Ali é seu lugar de gestação, lugar secreto, aconchegante e familiar, mas também, de certo modo, estranho. “O estranho é algo secretamente familiar que foi submetido à repressão e depois voltou”, segundo menção de Freud, sobre artigo de 1919. A identificação com o lugar é tanta que ela mesma vai aos poucos se misturando à vegetação. A luz e as cores completam o texto que surge por trás da imagem. Com extrema delicadeza, as imagens de Ursula falam de reencontro, mudanças, entrega e aceitação.


Reminiscências (memória e narrativa)

Isabel Portella

Pensar a memória como fenômeno da atualidade é trabalhar as possibilidades narrativas presentes no inconsciente que podem ser encontradas dentro de cada um e emergir em forma de sonhos, lembranças e registros. Provocar a articulação desse inconsciente em discurso é construir histórias e narrativas. Para trazer estas questões ao público interessado em arte, a curadora Isabel Portella convidou nove artistas do cenário contemporâneo carioca (Ana Kemper, AoLeo, Denise Adams, Elisa Castro, Helena Trindade, Lucenne Cruz, Jozias Benedicto, Rafael Adorjan e Ursula Tautz), de poéticas diferentes, para construírem trabalhos pensando a memória e a narrativa em uma visão estética atual.

Passagens do tempo deixam marcas que podem ser visíveis ou não, e estas carregam em si os rastros deste fluxo de vida. A memória pode ser despertada por imagens, cheiros, sons, que permitem novas combinações de leituras, sentidos, redescobertas, sustos. As narrativas tem como ponto de partida experiências vividas ou imaginadas, que podem ser completadas com inquietações e anseios.

Os nove artistas partiram do mesmo ponto: busca de elementos que potencializassem a memória e a narrativa e, em conversas com a curadora, cada artista desenvolveu o seu trabalho especialmente para esta exposição: Ana Kemper, AoLeo, Denise Adams e Rafael Adorjan com fotos; Lucenne Cruz com objetos; Helena Trindade com fotos e vídeos; Jozias Benedicto com uma videoinstalação e uma performance; Ursula Tautz com uma montagem fotográfica e uma videoinstalação e Elisa Castro com bordados.

Ursula Tautz apresenta na mostra “Reminiscências” uma vídeo instalação, “Sobre saudades (sem lembranças) para Televisores ou Saudações a Nam June Paik” e uma montagem fotográfica, “Uma Palavra”.

Na vídeo-instalação, como um tributo a Paik, Ursula revisita os conceitos do artista sul-coreano frequentemente creditado pela descoberta e criação da vídeoarte: “a vídeoarte imita a natureza, não em sua massificação ou em seu aspecto físico, mas na sua estrutura temporal, na sua irreversibilidade…”. A obra da artista nos faz refletir sobre novas possibilidades de uso dos meios tecnológicos e principalmente sobre cultura de massa e da utilização mais elaborada e libertadora desses veículos. Ao criar formas alternativas de expressão, Ursula toma como base a própria tecnologia que impacta nossas vidas, transformando não apenas as imagens, mas o próprio aparelho televisor em arte, incorporando-o à sua escultura. A relação Homem/Máquina é grande inspiração no nosso cotidiano midiático, eletrônico, digital e globalizado. Os televisores que a artista utiliza em sua obra reproduzem o vídeo familiar “Sobre saudades Sem lembranças”, com imagens e sons imprecisos, narrativa pouco coerente, mas envoltos numa atmosfera onde sonho e realidade se misturam. O tema do vídeo – uma viagem afetiva à terra de origem, as reminiscências e saudades – ameniza a frieza das estantes de aço, da luz azulada e da tecnologia.

“Uma palavra”, montagem fotográfica, questiona o uso da palavra e do poder sem justificativas para cometer atrocidades. Atingir o ser humano no seu espaço mais íntimo, a sua casa, destruindo, saqueando, bombardeando, devastando ou incendiando é algo que abala nossas crenças e certezas, difundindo o medo, a incerteza e a fragilidade. Ursula Tautz pesquisa extensivamente as relações que envolvem o habitar e o pertencer. Sua obra revela o cuidado com que trata de temas envolvendo raízes, lembranças e legados.


O ovo e a galinha

Ulisses Carrilho

“Como estratégia para exibir os trabalhos, os diálogos aqui apresentados buscam iluminar aquilo que os objetos partilham, em vez de preocupação com singularidades ou ineditismos” – Ulisses Carrilho

Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas veem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível.

(LISPECTOR, 1964, p. 55)

Em 1975, houve o primeiro Congresso Internacional de Bruxaria, em Bogotá, na Colômbia. Nesse congresso houve psicanalistas, antropólogos e diversos estudiosos do invisível. A autora ucraniana Clarice Lispector (1920-1977) foi convidada para a mesa “Literatura e Magia”. A escritora preparou para esta palestra o texto “O Ovo e a Galinha”, um conto.

Esta mostra parte da metafísica no texto para investigar uma hipótese: a ideia de desejo não é um privilégio humano, opera também entre os objetos. Como num duplo fantasmático, trabalhos apresentam-se aos pares. Reflexos e distorções sublinham semelhanças num regime de coincidências, concomitâncias. Atrações insuspeitas. As imagens da história da arte não operam em regime de influência, são consideradas sobretudo imagens espectrais, como assombrações: ovo visto, ovo perdido.

Na prosa de Lispector, imagem, real, sensível e, sobretudo, o sentido se fazem distantes: todos escapam. O Ovo e a Galinha empresta seu título a esta mostra menos pela sua qualidade narrativa, por como o leitor é conduzido. Mas por seus sobressaltos, suas qualidades metafóricas, seu desassossego. A maneira como a autora percebe ovo e galinha convida o leitor a questionar a separação entre um e outro, como facilmente divisíveis. Como estratégia para exibir os trabalhos, os diálogos aqui apresentados buscam iluminar aquilo que os objetos partilham, em vez de preocupação com singularidades ou ineditismos.

Vem da mesa da cozinha da autora este modo de pensar o ovo. Ao deparar-se com uma obra é preciso olhá-la com atenção superficial para não quebrá-la. É preciso tomar o cuidado de não entendê-la. “Sendo impossível realmente compreender do ovo, sei que se eu entendê-lo é porque estou errado de alguma forma. Entender é a prova do erro”.


A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento

Mario Gioia

A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento

Encadear um terceiro projeto e realizar com especial foco uma exposição coletiva sobre paisagem neste 2025 certamente não deixa de guardar desafios anteriormente não pensados. São tantas as perigosas variáveis que beiraria a leviandade elencar à exaustão os numerosos vetores a nos perturbar. Cabe uma contextualização mais aprofundada nas mostras da curadoria sob essa temática, ocorridas em 2013 e 2017.

Porém, primeiro, o que vemos. A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento vem a ser esse terceiro capítulo e captura fricções, estratégias, pesquisas e materialidades próprias dos dias de agora. As fake news e os deepfakes já ultrapassaram o sinal de meros perigos atrelados ao universo noticioso. As ferramentas tecnológicas são hoje fulcrais para potencializar a instabilidade do mundo democrático que outrora conhecíamos. As catástrofes ambientais não apenas são projeções do futuro, as metrópoles literalmente em brasas e as hecatombes derivadas de enchentes, por exemplo, nos descortinam um mundo que deixou o status de pós-apocalíptico, tão longínquo antes e que atualmente vem nos naufragando nas nossas rotinas. O solipsismo e o presente como a única coisa que importa também não ajudam.

Em síntese, Ao Sul, Paisagens (2013), abrigava em seus elos expositivos e relações materiais uma visada que se afastou do tenso, longe de polarizações e com um campo de especulações poéticas menos intrincadas. Por meio de obras de Paulo Pasta, Vera Chaves Barcellos, Mauro Restiffe, Pedro Motta e Marina Camargo, em um elenco de 16 nomes, havia uma polissemia mais aberta, menos refém de determinados estratagemas – tão caros ao corrente plano progressista.

Já Elogiamos a casa que se abre a perder de vista (2017) antecipava com a perspectiva tão arguta dos artistas visuais problemas, conflitos e situações que não poderiam mais surpreender agora. Da reunião passada de 21 olhares críticos, Dirnei Prates (este presente nos três recortes), Ding Musa e Gustavo Torrezan continuam na mostra apresentada e não se furtam a se distanciar do provocar – mas com ferramentas próprias da visualidade contemporânea. Prates utiliza o fotográfico para trazer a paisagem do RS lacerada pelas águas. Musa (em consonância à precisa individual Todo olhar é político, em cartaz na Raquel Arnaud) registra um desenho de morte e torna o fotograma algo que espalha aterrorizantes chamas. E Torrezan utiliza a concertina como fonte de um traço que tanto revela nossa incapacidade de convivência como atesta uma cultura do medo. “A cidade (…) é uma partitura visual complexa e móvel, que se transforma o tempo todo, é uma violência da sensação, um gasto constante de energia” 1, nos lembra Jean-Christophe Bailly em A Frase Urbana.

Sempre é fecundo relembrar que eleger a paisagem, esse tradicional gênero da história da arte, se relaciona fortemente com a produção de cada artista que, de modo muito subjetivo, a reinventa diariamente no trabalho diário de ateliê. A curadoria não criou subtemáticas e completou as obras em cada escaninho e, sim, os trabalhos vistos em volumosas visitas e frequências distintas pediram uma leitura individualizada que, no lócus do espaço expositivo, podem assim multiplicar suas camadas de leitura. Por exemplo, a instalação de Ursula Tautz que dá título à coletiva (que vem de escrito de José Eduardo Agualusa) ganha a luz nessa oportunidade para trazer memória, finitude e impermanência como elementos importantes da produção.

Peças de autoria de Beatriz LindenbergGabriela Noujaim e Luana Lins conseguem extrair da poética do feminino e sua inserção na paisagem resultados bastante variados e que evocam desde o vernacular e o ancestral a problemáticas rotineiras nas grandes urbes. Giulia BianchiIsis GaspariniLiliana Sanches e Mariana Mattos parecem optar por distintas investigações sobre o gênero de maneiras múltiplas, ora pelo confinamento num objeto (Gasparini), ora pela amplidão (Bianchi e Sanches), e também por uma plasticidade sedutora em diferentes escalas (Mattos). Naira Pennacchi, hoje vivendo entre Ribeirão Preto (SP) e Lisboa, cria dentro do pictórico e recorre aos primevos dia do homem americano por meio dos vestígios encontrados na Serra da Capivara (PI) e sua intrínseca inserção na comunidade local e na paisagem severa.

Bruno Weilemann Belo e Felipe Góes trazem inquietações plásticas acerca de flagelos que agora parecem até repetitivos e, no entanto, têm o mesmo status de réquiens. Em Belo, o pictórico traz biomas como o cerrado, com sua vegetação esparsa e pouco exuberante, rumo à extinção. Contudo, por meio de um repertório que abriga elementos do cinematográfico, as criações visuais transcendem o relato jornalístico. Já Góes é autor de panoramas que ultrapassam as perspectivas veristas, contudo não deixam de se ancorar com a trágica urgência de agora – que não deixa de exibir formas, cromatismos, superfícies e volumes povoados por um pictórico dos mais hábeis. David Magila é mais sorrateiro e utiliza (não só) a pintura para criar crônicas plásticas de lateralidades e dos arrabaldes. É também fonte para as telas de Ricardo Alves, tão hábil nas narrações de pequena monta.

A urbe com ruínas quase onipresentes, em permanente estado de desmanche e circulações marginais, é fonte rica para a persistente práxis de Rodrigo Sassi não apenas pelo tridimensional. Os objetos entre a opacidade e o caráter maciço podem se aproximar de paisagens de Luiza Gottschalk que deixam o bidimensional e, com o auxílio de um repertório intertextual, com golpes de dança e arte dramática, entre outros, criam peças de ritmo compassado e sedutor.

Por fim, dois artistas com poéticas em que o enigma surge para potencializar as poéticas. A jovem Mariana Perissinotto, em Penumbra (2025), traz uma tela de invejável e demorado processo pictórico e que registra uma figura em pose quase contrariada. Nessa antiespecularização, as luzes e as cores são tíbias e parecem fugir, mas terminam por compor uma cena a captar narrativas mínimas. Já Rogério Barbosa, distante dos grandes centros, vai compondo uma obra móvel em suportes e que, hoje por meio do audiovisual, do instalativo e da pintura discute o lugar, o espaço e o entorno. “Como um duplo inverso, o campo oferece o negativo da cidade, que, no entanto, lhe retira algumas características das quais ela não poderia prescindir” 2, escreve Anne Cauquelin. Paisagem-.

Mario Gioia, março de 2025

* Agradecimentos às galerias ArteFASAM, Aura, Bolsa de Arte, Mamute, Raquel Arnaud e Zipper.

1. BAILLY, Jean-Christophe. A Frase Urbana – Ensaios sobre a Cidade. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo. 2021, p. 163.

2. CAUQUELIN, Anne. A Invenção da PaisagemEdições 70, Lisboa, 2008, p. 47.